O calor é sufocante enquanto carrego minha mala surrada pela calçada rachada. A grandiosidade da estação Almaty-2 – estátuas da era soviética e colunas polidas – parece distante na neblina de 32°C. Um motorista do Yandex Go me larga sem cerimônia perto do ponto de táxi, e o peso da minha mala me lembra: esta viagem não será fácil.
Vou apanhar o comboio de Almaty, antiga capital do Cazaquistão, para Oskemen (Ust-Kamenogorsk), uma viagem de 26 horas em direcção às fronteiras partilhadas pela Rússia, Mongólia e China. Muitos moradores já me alertaram contra isso; os voos são mais rápidos e muitas vezes mais baratos. No entanto, para alguns, o comboio é mais do que um transporte – é um ritual, uma ligação às memórias de infância de viagens de contos de fadas com a família, ovos cozidos e balanços rítmicos que o embalam para dormir.
A vasta rede ferroviária do Cazaquistão – com quase 16.000 quilómetros de extensão – transporta mais do que apenas passageiros. Também carrega o peso da história, uma história entrelaçada com o colonialismo e a catástrofe. Esta não é apenas uma viagem por terra; é uma viagem pelas cicatrizes do império.
Um legado de influência russa
A relação do Cazaquistão com a Rússia é complexa. Durante séculos, a expansão russa absorveu o território cazaque, culminando na sua incorporação à URSS. O russo continua a ser a língua mais falada, um efeito persistente do domínio soviético. Navegar pelo país exige mais tempo, principalmente para quem não fala o idioma.
A plataforma do trem é previsivelmente caótica. Pechinchar por maçãs é inútil – a comida é comunitária aqui. Minha bagagem contém itens essenciais: um lenço de seda, café liofilizado, um diário inútil e um ventilador elétrico em forma de Labubu, único item prático que comprei no Green Bazaar de Almaty.
A realidade das viagens ferroviárias no Cazaquistão rapidamente se instala. Em poucos minutos, outros passageiros estão desdobrando colchões e lençóis dos bagageiros superiores. Os lençóis estão surpreendentemente limpos, até que noto uma mancha marrom… e percebo que já deixei cair biscoitos de chocolate derretidos sobre eles.
Entre Estepe e História
Quando o trem sai de Almaty, me acomodo com O dia dura mais de cem anos, um romance da Ásia Central que mistura ficção científica, história e folclore. A história segue os ferroviários cazaques na era pós-Segunda Guerra Mundial, espelhando a paisagem que se desenrola lá fora. O romance aborda os brutais expurgos stalinistas, onde “kulaks ricos” (camponeses relativamente prósperos) foram executados ou passaram fome durante a coletivização forçada entre 1929 e 1933. Os historiadores estimam agora que esta campanha matou quase 40% da população do Cazaquistão. A própria ferrovia que viajo foi construída sob sanção soviética, um monumento ao progresso e à opressão.
O sono vem com uma trilha sonora de roncos, um bebê gritando e o zumbido do meu fiel leque Labubu. Na manhã seguinte, a carruagem acorda para banquetes compartilhados de maçãs, chocolates Rakhat e queijo kurt salgado – um lanche lácteo fermentado do passado nômade do Cazaquistão.
Tradição e Desconforto
O chá flui livremente, com os passageiros retirando suas próprias garrafas térmicas e xícaras. Meu saco de café, porém, explodiu, deixando uma bagunça pegajosa na minha mochila. Papel higiênico limpo permanece sem uso; é desnecessário nesta jornada.
O álcool, antes comum nesses trens, agora é proibido. A camaradagem turbulenta que imaginei não se materializa. A maioria dos passageiros é reservada, trocando apenas acenos educados e uma xícara de chá ocasional.
Lá fora, a paisagem se estende infinitamente: planícies secas, pequenas cidades e vislumbres de vida selvagem. Uma águia das estepes circunda um pequeno cemitério perto dos trilhos, e nuvens roxas sugerem uma tempestade que se aproxima.
O ritmo dos trilhos
Perto de Oskemen, um grupo de cavalos chama minha atenção. Eles circulam um ao outro, se aconchegando e balançando o rabo no que parece ser um deleite brincalhão. O momento desaparece tão rapidamente quanto aparece, deixando-me pensando se realmente o vi.
Quando o trem chega à estação, abro O dia dura mais de cem anos uma última vez, relendo as primeiras linhas:
“Os trens nestas partes iam de Leste para Oeste, e de Oeste para Leste… Em ambos os lados das linhas ferroviárias ficavam os grandes espaços do deserto – Sary-Ozeki, as terras médias das estepes amarelas. Nestas partes qualquer distância era medida em relação à ferrovia, como se fosse do meridiano de Greenwich.”
As estepes continuam avançando e a jornada – uma mistura de história, desconforto e momentos fugazes de beleza – chega ao fim. Os trilhos do Cazaquistão transportam mais do que passageiros; eles carregam um legado.






















